Teatro

teatroA peça estava marcada para as primeiras horas da manhã mas os preparativos tiveram seu início muito antes, possivelmente na noite anterior. Um figurino diversificado, composto principalmente por um traje feminino sensual e vestes sacerdotais, entre outros estilos clássicos do primeiro século pertencentes a equipe de figuração. Areia e pedras se dispersam no imponente cenário de um antigo templo (onde mais tarde ocorreria o ápice do espetáculo), enquanto num outro estúdio, uma cama desarrumada por um casal de amantes rouba a atenção.
Ao passo que a lua vai sumindo no horizonte e raios tímidos de sol invadem o palco, a plateia começa a chegar. Um a um, os lugares são preenchidos e já é possível ouvir a música que antecede o início, além do som das conversas paralelas comuns entre os espectadores.
Quando de repente, as cortinas se abrem. Susto! Uma mulher é arrastada até o centro do palco, saltando aos olhos apreensivos das pessoas que também podem ouvir seus gritos desesperados. Líderes religiosos esbravejam e civis enlouquecidos apanham pedras nas mãos. A mulher está para dar o desfecho a este ato com sua morte pública.
Até que então, um coadjuvante aponta o dedo para uma pessoa na plateia que, diferentemente do restante do povo, parece não prestar muito atenção:
Ei, você! O que diz de tudo isso? – Brada em tom desafiador, enquanto todas as cadeiras se voltam aquele homem que tranquilamente brinca com seus dedos no chão de terra.
Silêncio…
Corações pulsando, veias saltadas e respiração ofegante, características típicas da ansiedade que paira no tenso clima do ambiente aguardam qualquer manifestação, mas ao invés disso, apenas silêncio.
Curiosamente, os ânimos vão se esfriando e a loucura cerebral vai dando lugar a uma dúvida quase reflexiva. Os braços dispostos a atirar pedras já não estão tão altos e as vozes não tão fortes.
Não está me ouvindo? – Insiste o ator, agora acompanhado por outros. – Estamos prontos para o “gran finalle” e queremos ouvir sua posição! Afinal está prestes a ver uma brutalidade, sem cortes ou censura.
Então, após mais alguns segundos calado, a voz serena do aparente distraído homem pode ser ouvida ecoando da última fila:
– Tudo bem por mim, desde que seja feito pelo mais perfeito de vocês. Aquele que assim se considera, faça!
Com o balde d’água, as expectativas de quem esperava um surto emocional murcham como um galho decepado. Elenco e auditório se misturam em olhares confusos e admirados. Ninguém toma a frente, as cortinas se fecham, a peça termina.
Essa não foi a única oportunidade que Jesus teve de presenciar um sensacionalismo. Em outra ocasião um verdadeiro circo foi montado ao seu redor no deserto. Ilusões projetadas, percepções alteradas e cenários transformados, num show de efeitos especiais e som de alta definição. O objetivo: balançar as estruturas humanas, roubar o foco, induzir a decisões precipitadas ou egoístas. Porém, mais uma vez, sem sucesso.

Situações reais em contextos distorcidos e cenas – propositalmente – editadas. Isso é muito comum, e pode estar acontecendo agora mesmo nas suas costas.
Talvez a garrafa de Vodka já tenha sido comprada e os copos já separados para a performance dramática do “marido embriagado” agendada para depois do jantar. Mentiras podem estar sendo espalhadas para o espetáculo da “demissão injusta” que espera você amanhã cedo no trabalho. Ou quem sabe você já pode ouvir o som da claquete indicando: “Cena da humilhação, Tomada do recreio, Luzes, Câmera, Ação!”.
E de repente, você está no centro do picadeiro, rodeado de palhaços malucos, trapezistas voadores e o estrondo dos motoqueiros do “globo da morte” bailando em sua volta. Todos querendo te convencer de que, se não agir depressa, o circo cairá na sua cabeça.

Uma dúvida que fica após lermos a história da mulher adúltera: E se não tivessem pedido a opinião de Jesus? Teria o Mestre interrompido a execução? Teria espantado os acusadores com chicotes como fez no templo? Ou apenas continuaria escrevendo no chão enquanto as pedras caiam?
O ponto é: Podia o alvoroço induzir Jesus? A gritaria podia ameaçá-lo? A violência intimidá-lo?
A insistência da multidão em conseguir uma resposta sugere o contrário. A dificuldade em acordá-lo no barquinho a beira do naufrágio sugere o contrário. Afinal uma tempestade no mar soa como canção de ninar para Ele. Exteriormente simples como um carpinteiro, interiormente inabalável como o Unigênito de Deus.
Uma resposta dada ao seu futuro executor nos esclarece a quem Jesus atribuía a palavra final: – ”Você não teria nenhum poder sobre mim, se este não fosse te dado do alto”.
Você não tem poder sobre mim!…” A mesma frase que ecoou na corte de Pilatos, também doeu nos ouvidos da dona morte ao encontrar sua casa violada e vazia no terceiro dia. Palavras que calaram a voz de satanás no horto das oliveiras, também ruborizaram o rosto de Judas ao sentir seus pés lavados por Aquele a quem trairia horas mais tarde. Os chicotes dos soldados romanos escutaram essa afirmação quando Jesus escolheu perdoá-los, assim como os fariseus enquanto o desafiavam a descer da cruz.

“Você não tem poder sobre mim!…”  Talvez você possa declarar também.
Grite isso para a sua carne quando ela sussurrar pelo pecado. Proclame para a vingança, perdoando imediatamente. Pronuncie para o ódio, amando incondicionalmente. Fale alto para o desânimo, arriscando uma segunda chance. Esbraveje para a auto-condenação, lembrando-se do sangue que escorre na cruz.
Nas situações constrangedoras, nas oportunidades tentadoras, nos momentos de pressão, nos perigos iminentes, nas calamidades, enfim, todas as vezes que descansamos na soberana vontade de Deus, escolhendo agradá-lo independentemente de qualquer consequência, bradamos em alta voz para o diabo “Você não tem poder sobre mim”!
E então as cortinas se fecham e nós podemos ver os bastidores. Por trás da máscara da revolta que pode esconder um rosto carente. Por baixo da fantasia do vício que veste um corpo frágil e abatido. Enxergamos então através da maquiagem suja do pecado que tenta encobrir um coração quebrado e desesperado por amor.
E assim como Jesus, talvez consigamos ver além das pessoas e suas atitudes. Perceber que batalhamos contra algo que vai muito além da carne e o sangue, mas que, graças a uma revelação vinda diretamente da Sala de Criação, já conhecemos o final.
O final que nos garante que, muito mais verdadeiramente do que qualquer conto de fadas ou películas Hollywoodianas, viveremos felizes para sempre!

Fernando Ometi

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