Bagagem

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Na última sexta, enquanto nossa equipe distribuía pães nas ruas de Bauru (acompanhados de um delicioso chocolate quente) tive a oportunidade de me sentar e ouvir histórias. Histórias de infâncias perdidas, relacionamentos machucados, ministérios abandonados, enfim, histórias de vida. Pessoas trazendo experiências ricas em bagagens pesadas, pedras preciosas perdidas em meio a quinquilharias desconfortáveis.
Exemplos que Deus nos permite ver, talvez para nos ensinar na prática lições que já conhecemos teoricamente. Como através da história de um pobre cidadão, que num descuido, trocou anos de comunhão com Deus e com os irmãos pela solidão do vício, o calor aconchegante de sua igreja pelo frio gélido do pontilhão, nos lembrando do perigo de cair, enquanto pensamos estar em pé.
Pudemos também ouvir conselhos doloridos, de quem experimentou da vida as piores consequências pelos seus erros, justamente por nunca terem tido alguém que as aconselhassem antes.
Desabafos de revolta, choros de tristeza, risos de boas recordações e pedidos genuínos de oração, motivados pela esperança que ainda resiste, mesmo com tantas incertezas. Enfim, bate-papo pra noite toda.

Porém, em alguns momentos, houve silêncio. Um rosto que nos era familiar tentava se esconder na multidão. Um homem que havia sido resgatado, devolvido ao seu lar e encaminhado ao convívio de uma comunidade cristã, estava novamente ali.
“Eu te conheço!” – exclamou um dos nossos, indo rapidamente ao seu encontro. Ele simplesmente abaixou a cabeça e com ela afirmou calado.
“Vocês são da igreja né?” – sussurrou, enquanto pegava algumas coisas espalhadas pelo chão, que aparentemente não queria que víssemos. E antes mesmo de qualquer resposta, se levantou tentando desviar um olhar nitidamente envergonhado e correu pra escuridão.
Mais tarde, novamente a falta de palavras nos tocou ainda mais. Agora através de um menino, com aproximadamente 14 anos, que perambulava sozinho debaixo do viaduto.  Após um lanchinho e algumas tentativas de aproximação buscamos conhecer melhor sua história, mas ao perguntarmos o motivo que o levou às ruas ouvimos apenas uma curta e triste resposta: “Não gosto de falar sobre isso” – seguida de um doloroso silêncio.
E então, depois de uma breve oração, ele adormeceu debruçado sobre os joelhos, trancando os monstros no fundo do seu armário e escondendo do frio as frágeis pernas vestidas apenas com uma fina bermuda.

Quem dera, eles tivessem nos dado um pouco mais de tempo. Tempo para mostrarmos que não somos tão diferentes. Para falarmos um pouco sobre nossos monstros interiores. Para tirarmos o fardo de seus ombros cansados e entregá-los aos ombros fortes, calejados pelo peso da cruz.
Talvez poderiam ter experimentado uma noite melhor.

Que Deus nos dê novas oportunidades. E nesse inverno, que estejamos sempre preparados para aquecer corações, muito mais do que com sopas e chocolates, blusas ou cobertores, mas com o incandescente amor de Deus.

Pois já as minhas iniqüidades sobrepassam a minha cabeça; como carga pesada são demais para as minhas forças.
Salmos 38:4

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