Eu não fui convidado para essa festa

banqueMuitas e muitas vezes eu passei por esse lugar. De fora é tudo muito bonito, a música, as luzes e as pessoas felizes que lá estão. Até o aroma é agradável. É uma festa, e como tem que ser, há risos, alegria e muita movimentação. É o que eu consigo ver do outro lado da rua, pois mais perto não me atrevo chegar. As pessoas chegam felizes e são recebidas pelo anfitrião, que não se contendo de alegria as coloca para dentro do belo salão. Ah, quem me dera estar lá dentro entre eles!

Ao mesmo tempo que é belo ver toda aquela movimentação, é triste voltar à minha realidade. Roupas esfarrapadas, mal cheiro, fome. Sou um necessitado. Eu sou a expressão exata da palavra “desfavorecido”. Sou aquele de quem as pessoas cortam volta quando passam pela calçada. Vivo daquilo que as pessoas mais sensíveis me concedem. Meus olhos brilham vendo a fartura de comida, luzes, alegria e companheirismo que existe nessa festa do outro lado da rua. Nunca serei capaz de estar num lugar desses, e o jeito é esperar o fim da festa para revirar o lixo à busca de algo para comer.

Mas especialmente hoje algo estranho aconteceu. Na hora costumeira do agito começar, não há nehum carro, ninguém chegando. O salão está aberto, os mordomos à frente em seus postos… Esquisito. Mais de hora passa e nada de ninguém chegar. Começo a ficar curioso pelo motivo de ninguém ter vindo hoje para a festa. Do meu lado da rua, o lado pobre, vejo o dono da festa gesticulando e comandando seus empregados. Ele parece descontente com a ausência dos convidados. Ah, que desperdício! Tanta comida, tanta bebida, música boa… e ninguém para desfrutar. O que terá acontecido?

Para minha surpresa, eis que um dos empregados do dono da festa vem em minha direção. Já me preparo, pois imagino que ele irá me enxotar daqui, afinal não é bom uma figura como eu poluir o visual de tão nobre bairro. Começo a recolher meus pertences, e ele chega com calma e me faz um convite. Não acredito no que ouço, mas é isso mesmo: ele diz que o dono da festa me convida para o banquete. Só pode ser pegadinha, penso eu. O mordomo é insistente e me pega pelo braço e me leva ao nobre salão. Ao mesmo tempo começam a chegar carros e mais carros com pessoas na mesma situação que eu: andarilhos, mendigos, prostitutas, bêbados, crianças de rua. Gente que cheira mal, com seus cachorros e tralhas todas. O dono da casa diz que somos bem-vindos e que é uma alegria nos receber. Ele nos deixa à vontade e diz que podemos comer e beber o quanto quisermos. É hoje! O pessoal avança sobre a comida e bebida, afinal nunca vimos tanta fartura na vida. Como tudo o que tenho vontade, bebo do que quero. Repito. Experimento mais uma vez. E mais.

Tudo está bom, mas algo me incomoda. Porque o dono da festa convidou pessoas como nós para a sua nobre festa? Ele me diz o real motivo: seus convidados o esnobaram e não vieram à sua festa. Sendo assim,ele resolveu abrir a casa e ofertar o banquete a nós, os da rua.

Assim é o Reino de Deus. Eu não sou convidado. Não sou digno. Estou à margem. Mas pela bondade de Deus, sou convidado para desfrutar do que não mereço. Hoje estou à mesa e me farto daquilo que o Rei tem para mim. Eu não era, mas agora sou. Eu não estava, mas agora estou. Eu não tinha, mas agora tenho. Assim é a dinâmica do Reino de Deus, um reino de improváveis, impossíveis e, principalmente, de indignos como eu.

Mauricio “não fui convidado mas estou aqui” Boehme.

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