CaLa

Foto: Isabela Ribeiro

Foto: Isabela Ribeiro

Minha irmã está em casa. Uma das vantagens de ser gêmea(o) é que (sem generalizar) se pode enxergar no seu semelhante conflitos muito parecidos com os seus, e de certa forma, como todo ser humano (a)normal, enxergar soluções para esses conflitos. Não os seus, propriamente, mas os do seu corpo gêmeo, afinal, os seus não tem soluções!

Tem algo muito semelhante em nós, que talvez alguém aí para quem escrevo possa se identificar, que acaba por nos roubar o presente e todo o nosso potencial atual. Uma coisinha, uma expectativa malandra de daqui há alguns anos eu vou chegar lá, e esse “lá” engloba todo um ideal de futuro perfeito. A base dessa coisinha é a tal da ansiedade. Acontece que os anos passam e, pelo menos eu, agora com 20 anos (óh, que experiente!), percebo que já estou na época do “chegar lá” que idealizei quando tinha 15 anos, e vejam só que coisa, eu não cheguei lá. Com 20 anos eu estaria me formando na faculdade de artes cênicas, morando no Rio de Janeiro, prestes a me casar com um cara SUPER legal, estaria comprando meu primeiro carro, seria uma atriz famosa e ganharia muito dinheiro para ajudar minha irmã gêmea em missões na África. Que bonito! (*-*) Esse era meu plano perfeito. Agora a realidade: ainda estou na metade da faculdade de jornalismo (que comecei depois de fazer um curso de missões, o qual me permitiu conhecer muitas culturas diferentes e ter experiências que mudaram a minha vida, etc, etc, etc), moro no interior de São Paulo, não me casei (aliás, nem namorado eu tive), estou começando a juntar dinheiro pra tirar a minha carteira de motorista, ainda não sei se tiro a carteira ou compro uma câmera, quero ser cineasta e rodar o mundo em missões (graça a Deus continua sendo bonito).

Dá pra perceber que na metade da frase anterior eu começo a expor algumas das minhas expectativas para que enfim eu chegue lá. O fato é que muita coisa mudou durante o trajeto que eu tracei. No meio do caminho encontrei algumas curvas, parei para descansar os pés e a vista, tentei pegar atalhos e acabei me perdendo no caminho, o que o deixou mais longo, enfrentei subidas difíceis e escorreguei em algumas descidas, mas enfim cheguei lá. Cheguei, e vi que o “lá” era muito diferente do que eu esperava, com algumas realidades duras mas com muitas compensações. Não tem tudo o que eu queria mas tem muita, muita coisa que eu nem pensei que teria. E quer saber? Eu não troco o “lá” do passado pelo “lá” do presente. Mas meu medo hoje foi trocar o “lá” do presente pelo “lá” do futuro, de novo.

Bom, então, enquanto conversava com minha irmã, descobri que eu nunca vou chegar lá, não enquanto eu viver. O “lá” MESMO é Lá, para bom cristão uma letra maiúscula basta. O mundo perfeito não vai existir aqui, eu não vou salvar o mundo todo, Alguém já fez isso e nem por isso o mundo é perfeito. Só será Lá. A satisfação completa só haverá Lá. Na verdade, eu não sei como será Lá, ninguém sabe. O que eu sei é que esse negócio de escolher esperar (e eu não estou falando da paradinha do “príncipe encantado” e da “princesa do Senhor”) é na verdade um lençol bonito que cobre o colchão da ansiedade onde, eletricamente, repousa o meu corpo tão cheio de potencial. Percebi que não estou “lá”, nem “Lá”, mas estou “cá”, onde deveria estar. Não tenho super poderes nem uma mega influência capaz de me fazer mudar todo o Mundo, mas faço parte de um corpo e faço pequenas coisas que podem mudar vários mundos, e juntando com as pequenas coisas que a minhã irmã gêmea faz nós podemos mudar vários mundos X 2. E juntando com as pequenas coisas que muitas pessoas fazem, nós podemos mudar vários mundos X várias pessoas. E aí a gente ajuda o Homem que salvou o nosso mundo a salvar muitos mundos e enfim revelar o Mundo Perfeito, enfim chegar Lá.

Toda essa reflexão surgiu de uma conversa que tivemos sobre os próximos passos dela, que está para se formar e não sabe o que fazer, e os próximos passos meus, que estou andando numa corda bamba que separa o lugar onde eu queria estar do lugar onde eu estou. Pré-ocupações com situações que para nós estão às beiras de acontecer, mas que para Deus ainda estão muito longe. Para cada dia basta o seu mal. O chão está para cada passo, e não o passo está para o chão. Primeiro eu levando o pé, e então Deus traz a terra firme. Deus traz.

Que a minha preocupação não seja ser melhor amanhã do que eu sou hoje, mas que eu seja melhor hoje do que eu fui ontem. Amém.

Frases que me influenciaram:

“A quantidade de leitura per capita no Brasil é de 1,2 livros por ano. Eu não quero mudar o mundo, quero mudar uma vírgula: 12,0.” – Biti (foi meu professor de Literatura no cursinho)

“Aprenda a controlar a sua ansiedade, depois você muda o mundo.” – Alexandre Peres (amigo de trabalho).

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