Túnel

594218_669499423O conhecemos na estação ferroviária. Quieto entre os outros moradores de rua, transparecia toda a tristeza de uma vida dolorida e solitária. Rodolfo era um menino de 17 anos (sinceramente ainda acredito que não tivesse mais do que 14) que encontramos nas ruas numa madrugada fria. Sem estrutura, sem propósitos, sem expectativas, em seu rosto podíamos ver apenas um olhar desiludido.
Aproximamo-nos e procuramos conhecer um pouco mais sobre sua história. Toni, um parceiro da equipe, tentou de todas as formas fazê-lo enxergar. Enxergar o garoto cheio de potencial, o menino inocente que ainda guarda esperanças, o jovem bonito e com uma vida toda pela frente.
Mas ele se recusava a sonhar, mesmo que por alguns segundos. Sua realidade o maltratava sem tréguas, esmagando qualquer chance de sequer um vislumbre de paz e felicidade.
Sua família, completamente destruída. Pais ausentes e viciados além de um padrasto alcoólatra e violento. O único vínculo sanguíneo acessível era um primo que estava também ali, sentado ao seu lado na rua, porém também escravo do crack.
Rodolfo então desistia. Entregava-se aos mesmos vícios e hábitos que destruíram sua casa. Percorria agora ativamente o caminho que foi obrigado a trilhar desde criança de forma indefesa.

Então oramos por ele, falamos sobre Jesus e fizemos um convite. Nos propomos a ajudá-lo a caminhar em uma nova direção. Não conseguíamos pensar no fato de voltarmos para nossas casas quentes e dormirmos em nossas camas aconchegantes deixando-o encolhido ali no chão duro da ferroviária.
Apesar de não ter nos dado uma resposta concreta, fez algo que tocou ainda mais nossos corações.  Antes de partirmos, Rodolfo tirou do dedo um anel – aparentemente o bem material mais valioso que possuía – e o entregou para Toni, com apenas uma condição: “Isso é para que vocês não se esqueçam de mim”.
Após esse dia, nunca mais o vimos. Sabemos por algumas pessoas que ele tinha sido internado em uma clínica de recuperação na cidade de Votorantim, embora até hoje ainda não tivéssemos maiores informações ou uma possibilidade de visitá-lo. Mas o fato de nunca mais o termos encontrado nas ruas já nos enche de esperanças. Quem sabe, por trás da janela embaçada desse trem desenfreado ele tenha conseguido ver o feixe de luz ofuscando lá na frente, no final desse longo e escuro túnel? Quem sabe, numa dessas muitas estações, em meio a pessoas ocupadas demais para perceber, apressadas demais para conversar, preocupadas demais para se envolver, ele tenha esbarrado num Homem, que assim como ele, não tinha um lugar para reclinar a cabeça. E talvez, esse foi o início de uma eterna amizade.

Bom, esse foi apenas um resumo do nosso encontro com Rodolfo. O anel que Toni carrega nos comove, mas acredito não ser tão necessário. De qualquer forma, jamais conseguiríamos esquecê-lo.

“You’ve got your disappointments and sorrows
You ought to share the weight of that load with me
Then you will find that the light of tomorrow
Brings a new life for your eyes to see”
Third Day – Tunnel
Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s