“…sereis como Deus” (serpente – Jardim do Éden)

narciso 2Na mitologia grega, o belo jovem Narciso, ao ver seu reflexo nas águas de uma lagoa, apaixonou-se pela própria imagem e ali permaneceu até a morte. (Wikipédia – sobre o Conto de Narciso)

Há tempos não escrevo… Por uma série de motivos justificáveis (trabalho, compromissos familiares, etc.) e outros nem tanto (preguiça e derivados desta). Durante esse período fui incumbido de administrar uma conta no Facebook, de um ministério da igreja. Seria o meu contato com a rede social (já que não possuo perfil pessoal) e também uma forma de ficar atualizado sobre as programações da comunidade.
Perdido no submundo das “curtidas e compartilhamentos”, logo tentei – sem muito sucesso – interagir. Mas não demorou pra notar que algo estava errado, e pior, começava a me contaminar.
Inúmeras fotos, ou melhor, auto fotos (selfies) em diversos contextos e situações, cujas legendas poderiam ser: “EU no evento gospel”, “EU ministrando”, “EU orando”, “EU fazendo caridades” e por aí vai. Imagens de mãos, mas não as crucificadas. Fotos de braços, mas não carregando a cruz. Antes, mãos “solando” e braços “marombados”.
Comentários múltiplos, bajuladores e infrutíferos em sua maioria. Uma espécie barata de massagem no ego, enquanto o marcador de “curtidas” determina o grau da autossatisfação.
Desejo incessante de transparecer sucesso. Sucesso no trabalho, nas finanças, nos relacionamentos. A nudez pública (e às vezes, literal) do indivíduo, que no desespero de SER, TER e PERTENCER exibe qualquer coisa que possa acrescentar migalhas de reconhecimento público, mesmo que por poucos minutos, já que a fila do marketing pessoal anda rapidamente e a enxurrada de publicações logo varre suas pequenas exposições para o limbo do “Feed de Notícias”.
Então caímos no esquecimento… Ou postamos mais uma careta frente ao espelho, uma espécie de “NÃO SE ESQUEÇAM DE MIM!” virtual.
E pior ainda, é quando a pessoa ainda tem o descaramento de, após criar uma verdadeira peça publicitária enaltecendo a sí próprio, terminar o “folder” com dizeres bíblicos ou frases de pseudo-humildade. Chega a ser cômico, quando na realidade, é trágico.

Mas onde fica Jesus e o Evangelho nisso tudo?

Eita tema ingrato esse! Confesso que pensei muito antes de publicar um texto com críticas a redes sociais. Primeiro, porque não passam de ferramentas e segundo, pelo fato de que maioria dos que amo e convivo estão dentro delas.
Não tenho interesse em ofender ninguém, nem quero parecer mais um “Neandertal” chato dando alfinetadas aos da “Era Digital”, mas sinto que preciso compartilhar (expressão proposital) o que tenho percebido, principalmente entre pessoas que atenderam ao convite de “ir após Cristo”.

Vejamos alguns textos bíblicos, puros e simples.

“Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”. Mateus 16: 24
Negar a si mesmo… A máxima do cristianismo. Jesus negou sua glória, se despiu de toda a majestade para se vestir de servo, para ser desprezado, como alguém sem beleza alguma (Isaías 53 2-3).

“É necessário que ele cresça e que eu diminua” João 3: 30
João Batista, acerca de Jesus. O maior de todos os anunciantes do Reino tirando os holofotes de si e mirando-os ao único que é digno.

“Mas, quando você der esmola, que a sua mão esquerda não saiba o que está fazendo a direita,” Mateus 6: 3
Mais uma vez, o anonimato que cabe a servos inúteis como nós, que nada estamos fazendo além de obedecer a ordens, e ordens básicas.

Pois é…, não é preciso procurar muito para encontrar turbilhões de citações bíblicas condenando a vaidade humana. Diversos exemplos de grandes homens que tombaram por seu orgulho, afinal ele é o predecessor da queda (Provérbios 16: 18).
O apóstolo Pedro teve a chance de receber adoração, mas rapidamente renunciou. Ele sabia quem era.
Pó… é o que somos. Pequenos tolos que teimam em acreditar na antiga mentira de que podemos “ser como Deus” e possuir glória. Saímos da idolatria para virarmos ídolos. Desesperados por adoração, sedentos por homenagens.

A questão é: Qual seu objetivo real, Jesus ou o próprio umbigo? Resolva esse conflito interno então caminhe para o alvo correto, agarrando o que convém e abrindo mão do que não serve.
Por exemplo: Postar notícias sobre seu namoro bem sucedido, abundância de posses e novas aquisições podem abrir muitas portas no meio social, mas não leva o evangelho a ninguém. Informações sobre sua formação acadêmica, qualidades interpessoais e dotes artísticos podem turbinar seu currículo, mas não transmitem a mensagem da cruz. Fotos sensuais de qualquer tipo podem instigar a imaginação de muitos, mas não os aproxima de Deus, um centímetro sequer.
E não se esqueça: Apenas um Senhor (ou senhor, dependendo do caso) será servido.

Enfim, um mito grego não é uma fonte confiável (nem conveniente) para extrair ensinamento, mas a estória do Narciso, pode servir de alerta nos dias atuais. Afinal, a lagoa do egocentrismo continua lotada de jovens definhando ao seu redor, contemplando a si mesmos num reflexo turvo de beleza, enquanto seus corpos cheiram mal do outro lado.

Que Deus nos permita acordar… E, apesar de achar utópica a ideia de uma vida humana sem qualquer vaidade (se tratando de pecadores como nós), que Ele tape nossos ouvidos do “canto da sereia” da exaltação própria. Pois aqueles que alegremente dançam sua música certamente serão – um dia – humilhados.
E partindo para um contexto escatológico, essa “vergonha” pode significar algo muito maior do que um simples “mico” compartilhado na rede. Um evento… que certamente poucas pessoas irão curtir.

“Qualquer, pois, que a si mesmo se exaltar, será humilhado; e qualquer que a si mesmo se humilhar, será exaltado.” Mateus 23:12

Ps: Se você repudia categoricamente este texto, se me considera um ridículo ou crê que estou sofrendo de inveja por não ser tão “bem sucedido” como as figuraças do Face, por favor, ore por mim, pois existe uma grande possibilidade de você ter razão. Eu mesmo já cogitei essa hipótese e orei várias vezes para que Deus retire do meu coração tal sentimento, se é que ele realmente esteja lá.
Agora, se assim como eu, você vê que tem algo errado. Se não consegue mais gastar alguns minutos na rede social sem que isso te embrulhe o estômago, ou enfim, por qualquer razão compartilha da mesma opinião, peço ainda mais calorosamente: Não curta ou comente esse texto. Não me elogie publicamente, nem qualquer coisa parecida. Pois existe uma velha criatura patética dentro de mim que se deleitaria com isso. Meu ego iria sem dúvidas inflar e isso é péssimo. Então, se tudo isso serviu de alguma forma pra você, apenas reflita sinceramente. Assim você fará um bem muito maior, a nós dois.
Interno: Peço profundas desculpas por não conseguir cumprir com compromisso de administrar o perfil desse abençoado ministério (quem lê, entenda). O Facebook é demais pra mim gente. Mais uma vez, me perdoem.

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